Espingarda

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Como dissemos na introdução, vamos nos concentrar nas armas inglesas quando falarmos, de forma genérica, sobre os equipamentos militares usados no Brasil do século XVIII. Por exemplo, em um inventário do Arsenal de Guerra de Lisboa, de 1802, encontramos referência a existência de 36.000 espingardas inglesas em depósito (80% do total). Desta forma, começaremos falando da famosa Brown Bess, apelido por que era conhecida pela tropa a espingarda inglesa padrão usada desde 1703 até meados do século XIX.

Espingarda portuguesa semelhante ao Modelo Long Land Pattern distribuída a tropas de Minas Gerais em 1786. Arquivo Ultramarino, Lisboa.

As Brown Besses passaram por poucas modificações ao longo do século, seguindo um padrão que vinha ocorrendo desde o século anterior, de aligeiramento das armas. Inicialmente a espingarda era muito longa, com um cano de 117 cm no modelo Long Land Musket - que resultava em uma arma, com baioneta, com mais de 180 cm de comprimento. Posteriormente se adotou uma arma ligeiramente mais curta, com um cano de 107 cm (o modelo Short Land Pattern), chegando-se, no final do século a um cano de cerca de 99 cm de comprimento (o India Pattern, por ter sido originalmente desenhado para o exército da Companhia das Índias Orientais Inglesa).

Apesar dessas variações - e de outros detalhes menores, como forma das guarnições e dos mecanismos, as armas mantiveram, mais ou menos, um padrão constante: com mecanismo de pederneira, comprimento entre 158 e 140 cm, com um peso indo de 4,3 até 5,2 kg e com um calibre de 19 mm (ou adarme 12). Recebendo uma baioneta triangular de alvado, a espingarda era transformada em um pequeno “pique”, para defesa das formações contra cavalaria. Nunca é demais frisar novamente, que, mesmo dentro de um dado modelo - como o India Pattern - havia grande variações de uma arma para outra, muitas vezes perceptíveis a olho nu. Mesmo em armas aparentemente idênticas, as técnicas de fabricação manual geravam diferenças marcantes: normalmente, a baioneta de uma arma, não entra ou não encaixa direito em outra do mesmo modelo.

Brown Bess, India Pattern. Acervo do Museu Histórico Nacional.

O desempenho da arma também era mais ou menos padronizado. Com um alcance máximo na ordem de 900 metros, a espingarda era tão imprecisa que os regulamentos para o tiro não tratavam do disparos a mais de 200 - e isso somente quando os alvos fossem concentrações de tropa, alvejado por outras concentrações de tropa. Na verdade, o tiro mais comum era aquele feito à distâncias mais curtas, na faixa de 75-150 metros de distância (isso contra alvos emassados). Um atirador muito bem treinado, em condições ideais, podia manter uma cadência de fogo de 3 tiros por minuto, mas dois disparos por minuto é uma estimativa mais razoável da capacidade da espingarda de pederneira de carregar pela boca. Em emergências, era possível se dispensar o uso da vareta para calcar a bala - o atirador colocava a carga e a bala, sem bucha, na arma e dava uma forte pancada com o coice da arma no chão, fazendo com que tudo descesse cano abaixo. Neste caso, a precisão da arma diminuía ainda mais, mas era possível disparar-se até 7 tiros por minuto - durante um curto período (ver carregamento).