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Arcabuzeiro brasileiro a serviço dos holandeses, com arma de pederneira |
Antes de iniciarmos as considerações sobre este século, é necessário apontar que, no Brasil, não havia ainda uma força de cavalaria, de forma que os equipamentos especializados dessa Arma - a pistola e a clavina - ainda não existiam por aqui.
No tocante ao armamento da infantaria, duas modificações importantes são feitas nas armas de fogo ao longo de sua existência, especialmente no século XVII. A primeira é com relação ao sistema de inflamação da pólvora. No século XVI já havia alguns mecanismos de disparo que dispensavam o uso da mecha (morrão) ardente - as armas com fechos de pederneira. Nestas, a detonação da escorva se dava por meio da fricção de uma pedra de sílex (também chamada de pederneira) contra uma peça de aço (chamada de fuzil), como em um isqueiro moderno. As armas de pederneira, como eram chamadas, tinham mecanismos muito mais complexos que as de mecha, o que tornava sua difusão muito lenta - de fato, as armas de mecha só deixam de ser usadas totalmente no início do século XVIII.
No Brasil, as armas de mecha também permaneceram como preponderantes ao longo dos séculos XVI e XVII, apesar de que as armas de pederneiras eram naturalmente preferidas, por sua segurança (eram menos sujeitas aos efeitos da umidade) e não terem o problema da fumaça e luz - especialmente a noite - gerada pela mecha ardente, de forma que há muitas menções a essas armas em nossos documentos históricos, como a seguinte passagem, de 1618, escrita por um dos oficiais da conquista do Maranhão, que pedia o envio de:
"Duas dúzias de escopetas de pederneira que servem em todo o tempo, quer chova, quer não para qualquer assunto ou emboscada de noite que anda já o gentio tão prático que dia que antes quer pelejar conosco de noite que de dia, por razão que de noite os não vemos e eles vendo as nossas mechas acesas atiram a elas e nos matam. E disse bem porque poucos são os soldados que saibam esconder sua mecha quando é necessária".
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Baioneta primitiva (acima) e de alvado (abaixo), ambas do século XVII |
A segunda grande modificação que vai ocorrer com o arcabuz é a introdução da baioneta. A cadência de disparo, o alcance e precisão das armas de fogo de carregar pela boca nunca foi suficiente para impedir que uma carga de cavalaria chegasse aos atiradores e ai a força de embate do homem a cavalo garantiria a derrota de qualquer formação armada exclusivamente com armas de fogo. A solução normal dos séculos XVI e XVII era colocar os atiradores próximos as formações de piqueiros, mas isso não era ideal, pois não resolvia todos os problema da vulnerabilidade dos arcabuzeiros/mosqueteiros, como o uso de formações avançadas. Uma alternativa que se pensou foi a colocação de uma faca na boca da arma, a baioneta de punho, transformando o arcabuz em uma um pique curto, mas isso, naturalmente, significava que a arma não podia disparar e ai o comprimento maior da lança de cavalaria garantia a derrota da formação e atiradores. A solução foi encontrada em 1688, pelo Marechal Vauban, francês. Na arma por ele projetada, a baioneta seria presa no cano da arma por um anel (o alvado), que ficaria por fora do cano, permitindo que os atiradores, organizados em formações cerradas, se defendessem das armas brancas da cavalaria, sem perder o poder de fogo. A baioneta de alvado, que permaneceu em uso até o fim do período das armas de carregar pela boca, representou o fim das unidades de piqueiros, que desaparecem dos exércitos Europeus na virada do século XVII para o XVIII.
O conjunto arcabuz/baioneta de alvado viria a se tornar a arma padrão dos exércitos e como a cavalaria não usava mais armaduras complexas, os mosquetes foram desaparecendo e com eles o próprio arcabuz, voltando a se usar o termo espingarda para a arma de fogo do infante.