A Spencer teve o potencial de ser um equipamento revolucionário na história da cavalaria Brasileira, mas este potencial foi desperdiçado. Baseada em um desenho de 1862, de autoria Christopher M. Spencer, foi muito usada na Guerra da Secessão norte-americana – mais de 94.000 sendo adquiridas pelo Governo da União, para equipar suas forças, especialmente de Cavalaria.
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Mecanismo da clavina, mostrando, o depósito de cartuchos na coronha (apesar de ter cartuchos demais). |
A arma era revolucionária por ser de retrocarga, de cartucho metálico e, principalmente, por ser de repetição, portando sete cartuchos de percussão periférica em um carregador tubular na coronha. Por ser de retrocarga, era possível ao atirador recarregar enquanto estava deitado (todas as armas de carregar pela boca exigiam uma postura ereta para isso, tornando o atirar um bom alvo para o inimigo). Ao mesmo tempo, o fato de ser uma arma de repetição dava-lhe uma cadência de fogo prática de 3 a 5 vezes maior que as armas de carregar pela boca. Pela primeira vez a cavalaria tinha condições de, em um combate de tiroteio, derrotar um número igual, ou até maior, de infantes, armados com espingardas ou carabinas de fulminante.
Durante a Guerra do Paraguai, em 1866, quando foram adquiridas a pedido do Marques de Caxias, tiveram um problema inicial com a munição (assim como as Roberts). Esta não muito confiável e isto retardou a sua distribuição para a tropa. Entretanto, a insistência dos oficiais da Comissão de Melhoramentos do material do Exército – e do Marques de Caxias – fez com que novas tentativas fossem feitas em 1867 e os problemas iniciais superados, sendo a arma distribuída em grandes números aos esquadrões de atiradores dos Regimentos de Cavalaria. (a primeira unidade a recebê-la foi o 5o Corpo de Caçadores a Cavalo), mas logo já era de uso mais ou menos comum, tendo se destacado em combate pela primeira vez em 24 de setembro de 1867, durante as operações de cerco de Humaitá.
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Spencer e suas peças principais. Manual do Soldado de Infantaria, 1872. |
Logo se percebeu a imensa vantagem das unidades armadas com Spencer, especialmente na campanha de perseguição aos restos do exército paraguaio, na cordilheira. Um autor, escrevendo sobre a evolução das armas na Guerra do Paraguai, colocou:
"A Clavina de Spencer tornou-se notável em todos os encontros da nossa cavalaria nas gloriosas jornadas desta fase da guerra [na dezembrada]: foi respeitada e considerada como uma excelente arma por haver muito concorrido para o nosso triunfo em diversas sortidas, combates e batalhas"
(...)
No combate de São Solano a 6 de setembro [1868] um grupo de cavalarianos, apenas 57, armados com aquelas clavinas, resistiram intrepidamente a uma força de quase 500 homens da cavalaria inimiga, em cujas fileiras faziam destroços, e sustentaram o mesmo ataque até a chegada de reforços.
No combate de Isla-Tay em 3 de outubro de 1867, e no de Tatayba, em 21 do mesmo mês, que foi um bem combinado ataque para destruir a cavalaria inimiga, as nossas clavinas à Spencer obtiveram maravilhosos resultados com seus rápidos e mortíferos tiros, e derrotaram completamente o inimigo, que nunca conseguiu fazer uma só carga, como mesmo afirmaram alguns dos seus oficiais prisioneiros.
Ainda foi a clavina Spencer de grande efeito na perseguição do inimigo por ocasião da memorável jornada de 3 de novembro [segunda Tuyuty]".
Estas claras vantagens da arma levaram o Conde D’Eu a uma posição que já antevia a evolução nas táticas que ocorreria no final do século XIX: ele ordenou a formação de unidades ad hoc, de atiradores, reunindo diversos esquadrões de cavalaria armados com Spencers em unidades improvisadas, usando a vantagem do poder de fogo maior que ela trazia.
Essa idéia, contudo, não vingou, os regimentos voltando a ter a organização mista de lanceiros/atiradores após a guerra. Felizmente o Brasil não teve que se engajar em um conflito externo no período, de forma que o erro na organização tática não teve efeitos funestos.
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Cartucheira Blaksley, com 7 cartuchos, arrumados para carregamento rápido. |
A Spencer fez tanto sucesso que, em 1873, se fez outra encomenda dela, esta na Bélgica, junto a Union Armuriere Belge, consórcio daquele país. Isso devia-se ao fato de que a Fábrica Spencer nos Estados Unidos tinha falido e os direitos de fabricação adquiridos por outra companhia que não desejava prosseguir na fabricação da mesma (existem duas fábricas diferentes dessas armas nos EUA: Spencer e Burnside, com três variantes principais, de acordo com detalhes de fabricação).
Curiosamente, em 1872, o Exército já tinha adotado uma nova arma de repetição para a Cavalaria (a clavina Winchester), mas os oficiais continuaram por um longo período a preferir a Spencer, por causa da fama adquirida na Guerra do Paraguai.
Em 1877, surgiu a última variante da Spencer, resultado de uma modificação local, quando se ordenou a transformação de todas as armas de percussão periférica para percussão central. Essa operação foi feita na Fábrica de Armas da Conceição na maioria das armas (hoje em dia é difícil encontrar uma arma não modificada).
As Spencers, usadas a partir de 1872 nas companhias isoladas de cavalaria das províncias, continuaram a ser usadas como armas de cavalaria até a década de 1890, quando foram substituídas pelas clavinas Mannlicher modelo 1888.
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Clavina
Spencer |
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Calibre: |
12,7 mm |
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Comprimento: |
94 cm |
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Peso: |
3,8
kg |
| Carregador: |
7 cartuchos |
| Raias |
3 ou 6 a direita |
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Alça |
de 0 a 900 jardas |
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Alcance útil: |
300 m |
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Cadência de fogo: |
12 a 21 tiros por minuto |
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