A guerra indígena

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Cena de combate entre os Tupinambás e Marcajás. Jean de Lery, 1578.

De uma forma geral podemos dizer que os grupos indígenas davam uma grande importância à guerra. Esta era parte fundamental de sua cultura, em diversos momentos, como na captura de mulheres para casamento ou no esquema que se chama de guerra de reinvidita (vingança): os conflitos se iniciavam para vingar ofensas passadas, vingando a morte de guerreiros ocorrida em outros conflitos. O objetivo maior era a captura de prisioneiros para que estes fossem sacrificados e devorados de forma ritual, completando a vingança. Naturalmente estes rituais – e as baixas em combate – levavam a necessidade de novas vinganças, reiniciando todo o processo.

Uma das conseqüências desse modo de fazer a guerra era todo um procedimento ritual de combater, onde os guerreiros procuravam afirmar sua masculinidade através da forma como lutavam e capturavam os inimigos para o sacrifício, quase como se em um espetáculo, bem diferente de uma guerra total. Havia, portanto, a necessidade do combate aproximado, o que fez com que fossem desenvolvidas armas específicas para a luta corpo-a-corpo, que se somavam ao arco e flecha, de uso cotidiano de todas as culturas indígenas.

As armas usadas não empregavam metais (desconhecidos no Brasil pré-colonial), sendo que os elementos cortantes eram feitos com as matérias primas disponíveis na natureza – madeira (endurecida a fogo ou não), ossos e, principalmente, pedras, como o quartzo e o sílex.

Guerreiro Tapuia, Eckhout, séc. XVII

Do modo de luta indígena, visto por um europeu

De como os Selvagens combatem tanto na água quanto em terra. André Thevet, As singularidades da França Antártica, 1556.

"Se o leitor perguntar por que estes selvagens fazem guerras uns contra os outros, conquanto quase não existam entre eles diferenças hierárquicas, nem riquezas que despertem cobiças, e sendo que a terra lhes concede até mais do que necessitam, só poderia responder-lhe que as causas de tais guerras são absolutamente fúteis. Move-os apenas o mero apetite de vingança, e nada mais, tal e qual se fossem animais ferozes. Como uma desculpa para sua impossibilidade de selarem um acordo honesto, alegam que seus vizinhos e eles têm sido inimigos desde todo o sempre...

Assim sendo, reúnem-se os índios em grande número (...) e partem para atacar os inimigos, especialmente no caso de terem sofrido alguma agressão recente. Onde quer que se encontrem, batem-se com flechas até que se aproximam suficientemente para passar ao corpo-a-corpo. Aí, então, agarram-se pelos braços ou pelas orelhas, esmurrando-se firmemente. Cavalos, ninguém utiliza, nem mesmo os mais fortes, ao contrário do que se poderia supor.

Nas guerras, demonstram grande obstinação e coragem. Antes de entrarem em luta aberta (...), postam-se no campo onde se travará o combate, afastados do inimigo à distância de um tiro de arcabuz. Durante um certo tempo (às vezes, um dia inteiro), ficam trocando injúrias e ameaças, fazendo uns para os outros as mais cruéis e medonhas caretas que podem, ululando e gritando com tal estridor que não se conseguiria ouvir o ronco de um trovão. Revelam ainda suas terríveis intenções por meio de gestos, erguendo seus braços e mãos, e exibindo suas clavas e tacapes, enquanto vociferam: “Nós somos valentes! Ontem, devoramos vossos pais; hoje, devorar-vos-emos!” (...).

(...)

A maior das vinganças praticadas pelos selvagens, a que me parece ser a mais cruel e indigna, é a de devorar os inimigos. Quando capturam prisioneiros de guerra e não têm condições de conduzi-los à sua aldeia, cortam-lhes os braços ou as pernas e, se houver tempo antes de recomeçar o combate, devoram-nos ali mesmo, enquanto não chega a hora de se retirarem do local. Caos contrário, cada um leva seu pedaço maior ou menor. Sempre que podem, levam os cativos para a sua aldeia, mas ali também o devorarão posteriormente.